abril 30, 2004

DIÁRIO DE UM PORTUGA SENTIMENTAL

[ Seg Out 20 2003 ]

"Onde estão as peúgas?" indaga António Silva Purificação Prazeres, 47 anos, "...aquelas brancas? As das raquetes.". Sua esposa, mulher de carreira doméstica, tudo o que alguma vez quis ser por nunca poder ter sonhado mais além, responde com a certeza de quem repete um gesto ininterruptamente "Na gaveta!". António Silva da Purificação Prazeres pensa duas vezes entre levantar-se do leito onde veste o fato domingueiro - traje desportivo multicolorido composto por jersey e calça a fazer pendant - para ir buscar as ditas ou jogar mão aquelas que jazem no chão desde a noite anterior. Não as vislumbra imediatamente mas, pelo cheiro, não estarão longe. Calça-as. Afinal, são as suas preferidas.
"'Tás demorada?" volta a questionar. "E o raio do gaiato?" O raio do gaiato é um miúdo de 7 anos. Como todos os petizes da sua idade, é um rapaz calmo, calado e rosado pelas sopas de cavalo cansado pela manhãzinha. "Umas rosas lindas!" diz a avó. "Ruben! Come depressa o pequeno almoço. O teu pai chama!" Ruben quer mas não consegue; o vinho é rasca. Sente-se mole. Atrasa-se. O pai, farto de aguardar, ajuda-o dando-lhe um esticão pelo braço para fora da cadeira. Ruben já não se assusta. Sabe que o pai jamais lhe faria uma luxação. Ele domina como ninguém a sua força.
A família precipita-se para o carro. BMW em segunda mão, preto, com uma aparelhagem de som antiga. Uma topo de gama já com um ano que os tempos são duros e não há dinheiro para mais. O pai volta a casa vociferando em português vernáculo. O telemóvel com MMS ficou para trás...
Feitas as compras, regressam a casa. António Silva da Purificação Prazeres senta-se no sofá em frente ao televisor. As compras ficam para o petiz descarregar. "As crianças precisam de fazer desporto" gaba-se ele de ter ouvido dizer na televisão outro dia.
Passa o resto do dia sem se mover. Levanta-se somente para comer. O Benfica vai jogar. Como um animal que hiberna, o relógio biológico dá horas e ele acorda da letargia a que se entregou. "Maria. Traz aí uma cerveja!" Maria parece ignorá-lo e ele então completa encarecidamente: "Já!". Feliz coincidência: o primeiro gole na mini, e o pontapé de saída. "Vão mamar 4-0", diz com a convicção de um expert que jogou futebol na sua juventude no clube lá do bairro. Quase no fim da primeira mini, o Benfica marca e António Silva da Purificação Prazeres salta. Salta e grita "Golo!". Depois de extravazar a sua alegria senta-se e repete: "Maria, traz aí outra cerveja. Já!". Desta vez, precaviu-se.
Mais ou menos pela mesma altura, no fim da segunda garrafita, o Gil Vicente empata. António Silva da Purificação Prazeres, sentimental como é, rapidamente somatiza o golo e é afectado por um prurido nos testículos que lhe tolhe a visão de tão intenso. Rapidamente se socorre dos dedos da mão esquerda (a direita tem a cerveja na mão) para o aliviar. O jogo recomeça e o pai, consciencioso, tenta sensibilizar o seu filho para tomar atenção ao jogo, afinal de contas o futebol é parte integrante da formação de um homem de carácter. O papá tenta convencê-lo mas só o consegue ao segundo impacto da sua mão na fronha do miúdo. Mas ele não tem medo. Sabe que o pai jamais lhe partiria os queixos. Ele controla como ninguém a sua força.
Intervalo. As duas cervejas querem sair. O jogo recomeça. Outras duas querem entrar. Eventualmente, o Benfica marca o segundo golo e vence a disputa. António Silva da Purificação Prazeres é novamente assolado por uma enorme felicidade. Tudo lhe parece lindo. Até a sua Maria. Sente-se um animal. Apetece-lhe cobrir. Maria, essa, dói-lhe a cabeça. Como ao petiz, curou-a à segunda lambada. Bem dizia a sua mãezinha que ele tinha jeito para médico. Acabou servente. Por opção. Opção do pai que o tirou da escola e o mandou trabalhar aos 12 anos. Hoje é feliz. Acha ele...

Publicado por João Ilhéu em abril 30, 2004 11:31 AM
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