[ Sex Jan 16 2003 ]
É tarde. Escrevo sentado ao computador com uma chávena fumegante ao meu lado. Escrevo e não o faço feliz. Eu não queria saber! Não queria e não precisava! E no entanto disseram-me à mesma! A quem terei que me queixar? A quem poderei dizer "Não! Eu não queria saber que o Carlos Cruz tem manchas na pila!". Forçaram-me assim a ser redundante. A escrever duas vezes no mesmo dia sobre a mesma coisa. E eu não queria...
Sou um produto da revolução de Abril. Como tal, jamais poderei dizer que senti na pele a repressão de que oiço falar. Pode parecer estranho mas tenho alguma pena de não ter memórias dessa época. E digo-o por uma simples razão: a de dar valor à liberdade que hoje disfruto. Mas, apesar de tudo, é para mim claro que nós enquanto povo enfrentamos graves dificuldades em compreender que liberdade não é fazer o que se quer, quando e como apetece. Ter direitos não é sinónimo de anarquia. Ter direitos significa que para os exercer, não o podemos fazer para além do ponto onde estes se sobrepõem aos de qualquer outro indivíduo. Não compreendo por isso, entre tantas outras coisas, a razão pela qual Portugal tivesse que saber que o apresentador tem manchas no seu pénis. Não compreendo e não aceito. Não aceito que me esfreguem nos olhos o argumento do interesse jornalístico e informativo. O direito de informar (será que o é?) não se está a sobrepor ao direito de justiça e privacidade? E poderemos continuar a permitir que tal aconteça?
Não me espanto por isso que se volte a falar de censura. Neste estado de coisas não há futuro.
Há quem diga que são necessárias três gerações para limpar os efeitos de uma mudança de regime. É esse o tempo que eu vou ter que esperar para que aprendamos o que é a liberdade e o bom senso? Irra, que é muito tempo!!!...
Calem-se, porra!
(Se não me falha a memória:
Os meninos à volta da fogueira
Vão aprender coisas de sonho e de verdade
Vão saber como se faz uma bandeira
Vão saber o que custou a liberdade)