[Qua Out 29 2003]
Sou, acima de tudo, um céptico. Mas daqueles que às vezes acha que dava jeito haver mais qualquer coisa para além desta nossa breve passagem por este planeta. Apenas não tenho muita paciência para me preocupar com isso agora. Acho relativamente irrelevante. Um dia, quando me finar, terei muito tempo para me debruçar sobre as questões filosofico-teológicas e, nessa altura, já com conhecimento de causa. No entanto, uma das coisas que entretanto me intriga é a reencarnação. Num daqueles momentos em que nada parece fazer sentido, sentei-me ao computador procurando respostas para a minha reles existência (afinal de contas, se as houver, estão lá, na Internet). Segui as pegadas de um site que me prometia revelar o que fiz eu numa vida anterior. Em troca da minha data de nascimento, o meu passado foi-me revelado. Rezava então assim:
"Your past life diagnosis:
I don't know how you feel about it, but you were female in your last earthly incarnation.
You were born somewhere in the territory of modern Romania around the year 1200.
Your profession was that of a philosopher and thinker.
Your brief psychological profile in your past life:
Timid, constrained, quiet person. You had creative talents, which waited until this life to be liberated. Sometimes your environment considered you strange.
The lesson that your last past life brought to your present incarnation:
It always seemed to you that your perceptions of the world are somewhat different. Your lesson is to trust your intuition as your best guide in your present life.
Do you remember now?"
Estou mesmo a ver, uma douta mulher, filósofa que parece, em plena Idade Média? Na Roménia? Na melhor das hipóteses terei sido declarado(a) herege, bruxa, ou afim e posta a assar em lume brando. Podia ser pior. Podia ter sido eunuco...
E os meus caros (sete ou oito) leitores? Já agora gostava de saber quem me lê. Será que há por aí alguma rameira reencarnada num qualquer doutor ou engenheiro?
[ Ter Out 28 2003 ]
Com a nova grelha televisiva que chega com o Outono, a vida ganha novo alento agora que o frio e a chuva nos leva a ficar em casa. Começou hoje a mais recente novela nacional. Tivémos já perseguições a alta velocidade, insultos e insinuações. Aguardamos avidamente para saber quem dormiu com quem, quem perdeu o sono, esperamos surpresas e sangue, muito sangue, para manter as audiências num nível aceitável. Os actores, esses, são de primeira linha. Merecedores de um Emmy, quiçá. Produção nacional no seu melhor numa qualquer televisão perto de si. Não perca as cenas dos próximos episódios d'o Julgamento da Casa Pia.
[ Qui Out 23 2003 ]
Depois de alguns anos afastado dos jogos de sedução e do confronto social que lhes é inerente, mudanças recentes na minha vida amorosa vieram alterar este cenário. Vi-me de novo lançado às feras... Foi neste contexto que há dias vi a musa que pensei ser finalmente a minha. Depois de trocar vários longos e lascivos olhares com a dita, enchi-me de coragem, aproximei-me e perguntei:
"Estás sozinha?"
"Estou. Queres fazer-me companhia?" Obviamente, acedi à proposta. "Fumas?" continuou, estendendo-me um cigarro, recolhendo-o logo depois numa reacção imediata à minha resposta negativa. Rapidamente tentei corrigir o lapso oferecendo-me para lhe pagar uma bebida. Ela aceitou. Várias.
Sussurrei-lhe então ao ouvido: "Posso contar-te um segredo?". Prontamente, ela saltou da cadeira efusiva "... de justiça?" perguntou. "Não, infelizmente, não." retorqui. "Que pena, assim não vou poder contar a ninguém!", disse. Um pouco baralhado, continuei com a frase mil vezes pensada e treinada ao espelho: "Há algum tempo que te andava a vigiar e..." pela segunda vez interrompeu-me entusiasmada "Trabalhas no SIS? Na Judiciária?". "Não." Reagi algo reticente. Seguiram-se alguns segundos daquele silêncio incómodo enquanto se tenta realinhar a conversa. À falta de melhor e num sinal claro de falta de rotina, precipitei-me: "Tens telemóvel?" "Tenho. Tenho e está sob escuta!" respondeu com orgulho resplandecente. "E tu?". Suspirei... Um daqueles suspiros que antecipam uma derrota anunciada. Fui incapaz de mentir "Não. Que eu saiba não." Consegui, nesse momento, detectar uma ponta de desilusão. Senti-me out.
Aquilo estava a tornar-se difícil. A rapariga estava a colocar a fasquia demasiado alta e eu começava a ter dúvidas se estaria à altura. Tentei redireccionar a conversa "Onde costumas passar os teus dias?" Com sobranceria elitista respondeu: "Na Casa Pia, onde vivo. E tu?" contrapôs já com algumas reticências. "Já acabei o curso. Arquitectura." A sua desilusão começava a tomar forma ao mesmo tempo que eu não hesitava em delapidar a minha reputação "Fiz o curso com uma média bastante razoável e acabei tudo no seu devido tempo.". "Queres ver que também pagaste propinas..." disse ela já visivelmente transtornada. Sentia que estava a perder o seu tempo comigo. Agora eu tinha a certeza. Estava out.
Finalmente e com o arrependimento estampado no rosto afastou-se. Fiquei despedaçado. Não por ela mas pela consciência da urgência duma reciclagem social na minha patética vida. Numa reacção que misturou ira com vergonha ainda reagi numa voz um tom acima do normal "Mas qual é o teu problema? Vais-te embora assim? Drogas-te ou quê?!" Ao que ela parou, virou-se e respondeu com os seus olhos esbugalhados de espanto "E tu, não?!!!..." E riu, riu, riu... E foi-se embora. De vez...
[ Seg Out 20 2003 ]
"Onde estão as peúgas?" indaga António Silva Purificação Prazeres, 47 anos, "...aquelas brancas? As das raquetes.". Sua esposa, mulher de carreira doméstica, tudo o que alguma vez quis ser por nunca poder ter sonhado mais além, responde com a certeza de quem repete um gesto ininterruptamente "Na gaveta!". António Silva da Purificação Prazeres pensa duas vezes entre levantar-se do leito onde veste o fato domingueiro - traje desportivo multicolorido composto por jersey e calça a fazer pendant - para ir buscar as ditas ou jogar mão aquelas que jazem no chão desde a noite anterior. Não as vislumbra imediatamente mas, pelo cheiro, não estarão longe. Calça-as. Afinal, são as suas preferidas.
"'Tás demorada?" volta a questionar. "E o raio do gaiato?" O raio do gaiato é um miúdo de 7 anos. Como todos os petizes da sua idade, é um rapaz calmo, calado e rosado pelas sopas de cavalo cansado pela manhãzinha. "Umas rosas lindas!" diz a avó. "Ruben! Come depressa o pequeno almoço. O teu pai chama!" Ruben quer mas não consegue; o vinho é rasca. Sente-se mole. Atrasa-se. O pai, farto de aguardar, ajuda-o dando-lhe um esticão pelo braço para fora da cadeira. Ruben já não se assusta. Sabe que o pai jamais lhe faria uma luxação. Ele domina como ninguém a sua força.
A família precipita-se para o carro. BMW em segunda mão, preto, com uma aparelhagem de som antiga. Uma topo de gama já com um ano que os tempos são duros e não há dinheiro para mais. O pai volta a casa vociferando em português vernáculo. O telemóvel com MMS ficou para trás...
Feitas as compras, regressam a casa. António Silva da Purificação Prazeres senta-se no sofá em frente ao televisor. As compras ficam para o petiz descarregar. "As crianças precisam de fazer desporto" gaba-se ele de ter ouvido dizer na televisão outro dia.
Passa o resto do dia sem se mover. Levanta-se somente para comer. O Benfica vai jogar. Como um animal que hiberna, o relógio biológico dá horas e ele acorda da letargia a que se entregou. "Maria. Traz aí uma cerveja!" Maria parece ignorá-lo e ele então completa encarecidamente: "Já!". Feliz coincidência: o primeiro gole na mini, e o pontapé de saída. "Vão mamar 4-0", diz com a convicção de um expert que jogou futebol na sua juventude no clube lá do bairro. Quase no fim da primeira mini, o Benfica marca e António Silva da Purificação Prazeres salta. Salta e grita "Golo!". Depois de extravazar a sua alegria senta-se e repete: "Maria, traz aí outra cerveja. Já!". Desta vez, precaviu-se.
Mais ou menos pela mesma altura, no fim da segunda garrafita, o Gil Vicente empata. António Silva da Purificação Prazeres, sentimental como é, rapidamente somatiza o golo e é afectado por um prurido nos testículos que lhe tolhe a visão de tão intenso. Rapidamente se socorre dos dedos da mão esquerda (a direita tem a cerveja na mão) para o aliviar. O jogo recomeça e o pai, consciencioso, tenta sensibilizar o seu filho para tomar atenção ao jogo, afinal de contas o futebol é parte integrante da formação de um homem de carácter. O papá tenta convencê-lo mas só o consegue ao segundo impacto da sua mão na fronha do miúdo. Mas ele não tem medo. Sabe que o pai jamais lhe partiria os queixos. Ele controla como ninguém a sua força.
Intervalo. As duas cervejas querem sair. O jogo recomeça. Outras duas querem entrar. Eventualmente, o Benfica marca o segundo golo e vence a disputa. António Silva da Purificação Prazeres é novamente assolado por uma enorme felicidade. Tudo lhe parece lindo. Até a sua Maria. Sente-se um animal. Apetece-lhe cobrir. Maria, essa, dói-lhe a cabeça. Como ao petiz, curou-a à segunda lambada. Bem dizia a sua mãezinha que ele tinha jeito para médico. Acabou servente. Por opção. Opção do pai que o tirou da escola e o mandou trabalhar aos 12 anos. Hoje é feliz. Acha ele...
[ Qua Out 15 2003 ]
Vós, Mães de Bragança, bradais aos céus aquilo de que sois vítimas. Sois vítimas das mulheres de vida fácil que vos tornam difícil viver. Redigis manifestos que tornais públicos, que levais à televisão em nobre horário pois nobre é também a cruzada contra quem vos ofende. Lavais roupa suja em praça pública com a plena convicção que a exposição tornará claro aos olhos da nação e do mundo, aquilo que vós vislumbrais no nevoeiro das vossas convicções. Assumis o epíteto de Mães pois o de Esposas há muito que foi renegado, esquecido e enterrado. Prazer não tem lugar nas vossas relações. É pecado.
Não vos deixais enganar pelos impuros, sarracenos que vos querem fazer querer que a culpa é vossa, de que vos haveis esquecido do bom que é seduzir, amar, partilhar experiências, dor e prazer. Que vos haveis esquecido que é necessário manter uma relação de pé do dia em que a assumimos ao dia que termina. Tudo artefactos que escondem a realidade de que o amor é eterno aos olhos de Deus. Mas não vos olvidais, porém, que nós não somos Deus. Não somos sagrado. Somos profano. Somos Homem; imperfeito e mortal na sua essência.
Ignorai as vozes do inferno e socorrei vossos maridos e filhos de se afogarem nos vícios da droga e dos feitiços que os mantêm escravos do desejo. Meretrizes! Hereges! Fogueira! Pobres daqueles que contra a sua vontade lutam ingloriamente quando esta há muito tempo que lhes fugiu das mãos!
O demo cornudo percorre impune as terras de Trás os Montes mas sois vós que andais em pontas.
Como regozijais quando vêdes a vossa história narrada nos cinco continentes. Mesmo que isso faça aflorar um sorriso jocoso aos lábios de cada leitor. Mesmo que isso me faça rir para não chorar de vergonha. Mesmo que agora Portugal tenha um Red District. Mesmo que os vossos maridos continuem a ir às putas porque não lhes apetece aturar-vos.
Mães de Bragança, contra tudo e contra todos, uni-vos! Contra as tentações da carne, uni-vos! Contra o pecado, uni-vos! Uni-vos e entoai em coro: vão p’rá puta que as pariu! E ficai descansadas... Eles vão!
[ Sex Out 10 2003 ]
A pesquisa por mim empreendida para sustentar alguns factos do testemunho anterior, conduziu-me a uma página na net onde constava uma biografia de D. Duarte Pio que, a certa altura, versava assim, e cito: "O legítimo herdeiro da Coroa Portuguesa - D. Duarte Pio, Duque de Bragança - estudou no Colégio Militar e no Intituto Superior de Agronomia. Cursaria também Psicologia e Sociologia no Instituto para o desenvolvimento, em Genebra dedicando particular atenção aos problemas do terceiro mundo." Agora digam-me lá, isto não vos soa a currículo de coelhinha (sempre é melhor que vaca) de página central da edição de Outubro de uma qualquer revista DA especialidade?
As imagens mentais daqui decorrentes são de inteira responsabilidade dos excelentíssimos leitores. De certeza que vai haver quem imagine o Rei de fio dental cravado no seu real rego. Eu não!
[ Sex Out 10 2003 ]
"Dois alunos marroquinos ficaram feridos quando a professora, farta do barulho que eles estavam a provocar na sala de aula, decidiu atirá-los pela janela." in Público, quarta-feira, 8 de Outubro 2003
Segundo testemunhas oculares, o arremesso terá sido tecnicamente exemplar, no entanto, a ansiedade natural da primeira vez terá tolhido a destreza dos pequenos aprendizes que, desse modo, não se conseguiram locomover convenientemente de modo a conseguir gerar a força de sustentação necessária a uma aterragem sem precalços. Em consequência, precipitaram-se da janela do 1º andar, em movimento uniformemente acelerado numa demonstração cabal do postulado de Newton, aterrando com as suas tenras focinheiras neste rijo planeta que é a terra.
Já no hospital e ao que consta, terão afirmado gravemente saber o que é a gravidade... finalmente.
[ Qui Out 09 2003 ]
Pelas quinas do escudo português! Ouvi por aí dizer que andamos a hipotecar a nossa tradição enquanto povo. Tradição essa que não é mais do que a pedra basilar de toda uma cultura que se quer preservada para fazer frente ao papão dos tempos modernos - a globalização - que estende as suas garras e ameaça retirar-nos a identidade. No entanto, venho aqui deixar uma palavra de esperança. (E aqui começa a parte menos séria da “cena”).
Se alargarmos o conceito de tradição ou se considerarmos como tal comportamentos repetidos de uma forma contínua e insistente perpetuados entre gerações, facilmente iremos verificar que muitos dos costumes hoje implementados nesta sociedade que é a nossa, remontam, num ou noutro caso às alturas do nascimento da nação. É o caso desse hábito tão português que é o da violência doméstica. Esta realidade atroz é, segundo o ponto de vista aqui (desavergonhadamente) defendido, tão somente uma herança cultural intrínseca ao facto de D. Afonso Henriques, primeiro Rei de Portugal, ter arreado em forte na bastarda sua mãe e ter ganho um país com isso. Assim, sim! É de homem.
Também no campo do trabalho infantil fomos pioneiros. Lugar que só temos mantido à custa de muito esforço. Dos petizes, bem entendido. Sempre tivémos por hábito de colocar a nossa juventude a trabalhar desde bem cedo. Reis na flor da adolescência, são mote ao longo da nossa história. Um dos mais famosos pela demora que já leva sem que ninguém saiba do seu paradeiro é, obviamente, el Rey D. Sebastião (se não se lembrarem quem é, é o tipo o da música do José Cid. Oiçam-na e pode ser queaprendam alguma coisa). Se se confirmar a hipótese mais pessimista, que sua majestade morreu em combate por terras africanas, estamos perante um caso de acidente laboral (lá está!).
Noutro campo da sociedade, todos os anos confrontamos a mesma negra e macabra realidade, a sinistralidade automóvel que ceifa, ou melhor, debulha e enfarda milhares de vidas todos os anos. Entrar em contra-mão nas auto-estradas é natural. Tão natural quanto o foi para o Vasco que se enganou no caminho quando queria ir para a Índia e descobriu a América (ainda estou para perceber esta).
Um outro colega seu que respondia pelo nome de Cristóvão Colombo, com dificuldade em encontrar emprego em terras lusas, após ter tentado ganhar a vida como saltimbanco a equilibrar ovos, emigrou para Espanha, conquistando ao seu serviço glória que nos apressámos a reivindicar (afinal de contas o gajo é portuga) e à qual nos encostámos. Qualquer coisa parecida ao viver dos rendimentos dos nossos emigrantes.
As saídas de território nacional nem sempre se fizeram só de razões de ordem laboral. A escolha de terras de Vera Cruz (Brasil, meus amigos, Brasil!) para “refúgio de férias” de uma figura púlica de Felgueiras, homónima de apelido, também não é ocasional. Já por volta de 1807 a corte portuguesa achou por bem dar corda aos sapatos não fosse o caso da coisa dar para o torto.
Pausa para esclarecimento: Quem esteja a ler esta mísera dissertação pode, por esta altura, estar ligeiramente ofendido no seu patriotismo, ou completamente descrente neste vosso amigo. Qualquer que seja o estado de espírito, o meu sincero obrigado por ter aguentado até aqui (este foi, oficialmente o último acto de auto-comiseração. Já deviam saber ao que vinham). Já foram fazer a mija da ordem? Então, siga!
Poderia ainda fazer aqui desfilar um rol de exemplos de acidentes domésticos (outro campo em que estamos muito bem colocados no panorama internacional) de Martim Moniz que se entalou, ao Salazar que caiu da cadeira e (felizmente) aleijou-se, passando por D. Maria Francisca que pariu D. Duarte de Bragança mas, basta! Já chega de maledicência!
Nem só de tristes e infelizes heranças se faz a história deste país à beira mar plantado. O primeiro atleta para-olímpico português, percursor da senda de vitórias dos seus sucessores, visionário vesgo, salvou o grande bastião da literatura portuguesa nadando com um só braço, vendo a meta com um só olho. Desportista ímpar, este Luís Vaz!
Hoje, alguns séculos volvidos, continuamos impregnados destas e doutras tradições que, como aqui expus, poderão ser heranças pesadas mas, simultaneamente, continuamos a ser capazes de grandes conquistas que nos enchem o peito e purgam a alma das merdas do dia a dia. Temos Camões, Saramago e Pessoa; Amália, Eusébio e Figo; fazemos Expos, Euros e Estádios; estradas, auto-estradas e pontes… e, PORRA! Na última até fizémos uma feijoada para comemorar!!! Ah, Portugal!
[ Dom Out 05 2003 ]
É oficial: perdi a inocência. ...e a vergonha. ...e a decência (e, por esta altura, alguns amigos também). e não me refiro aos três vinténs (moeda que actualmente não possui qualquer valor comercial), mas sim aquele modo de ver o mundo próprio duma criança, onde não há lugar a coisas tão abjectas como a ironia, hipocrisia ou maldade.
Foi consciente desta minha condição que empreendi uma reflecção em torno do imaginário infantil da minha geração, dos desenhos animados, contos de fadas e personagens afins que povoam a nossa memória. Hoje e sempre.
A perda desse modo imaculado de olhar o mundo fez com que, ícones então sagrados, se tornem, fruto duma nova contextualização, em objectos de escárnio longe, muito longe, dos exemplos que outrora foram. Senão atente-se: já não bastava sermos obrigados, qual trovador, a cantar versos Bocagianos sobre a aventura sexual do Calimero com a Abelha Maia (essa puta!), como ainda envolvemos a Branca de Neve, uma gaja que vivia com sete(!) gajos deficientes, numa escaldante aventura com o Pinóquio (esse boneco de pau feito, raiz etimológica da palavra "pinocada") em que ela, meretriz intrépida, dominatrix furiosa, lhe ordena sentando-se sobre o seu nariz "Mente, Pinóquio, mente!". E ainda querem convencer-me que a senhora se satisfez com um só beijo?!
E os Estrumpfes? Esses tipinhos azuis. Uma mulher para toda uma aldeia só de homens!? Sou só eu ou isto soa a serviço comunitário? Para já não falar do mais clássico e famoso caso de gerontofilia, provavelmente, o primeiro com que as nossas crianças foram e continuam a ser confrontadas. Falo do Lobo Mau que comeu a avozinha, pois claro.
Podia ficar aqui toda a noite a citar outros exemplos: a Heidi, o Pequeno Pónei (juntos ou em separado), a Barbie e o Ken, esse par de personagens andróginas e assexuadas, a Porcalhontas (juro, isto é mais forte do que eu!) ou esse ícone da literatura infantil a "Anita e o Cavalinho". Vou, no entanto, dar um salto para os verdes anos em que os super-heróis, símbolo da verdadeira masculinidade, tomaram o lugar aqui em destaque.
Passámos então a idolatrar homens musculados de parcas e justas vestes, de lycra ou cabedal, de cores berrantes (nada de folhos, porém, que isso é coisa de bicha!). Pensávamos nós, inocentemente, lá está, que gostaríamos de ser assim. Pois bem, veja-se uma das últimas incursões do Batman na sétima arte (atenção: não confundir com Bate-me Man): que necessidade havia de apresentar o gajo de mamilos túrgidos sob aqule fato de cabedal justo? Não satisfeitos, arranjaram-lhe um companheiro, igualmente túrgido, artista de circo e com nome de passarinho. O raio do filme mais parece a versão gay da Marvel para a história da vida recente da princesa Stephanie do Mónaco.
Depois de tudo isto só posso chegar a uma conclusão. Que para a nossa geração, chegar a adulto com a saúde mental incólume depois de sermos bombardeados durante anos com tais indecorosas situações, é uma inquestionável vitória. ...Ok, pelo menos, para alguns de nós. ...Ok, para alguns de vós.
[ Qui Out 02 2003 ]
Desta vez, a actualidade noticiosa fez-se deste acontecimento. Depois de contactadas as forças de segurança pública e de registada a ocorrência, foi a vez de entrarem os jornalistas em campo com as notícias a sucederem-se e vindas das mais variadas áreas.
Ao que parece, os ecologistas estão estupefactos com os movimentos migratórios massivos para águas da costa vicentina, das mais variadas espécies piscícolas. Segundo relatos de testemunhas no local cardumes inteiros de sardinhas estão a dar à costa. Aparentemente, o motivo da morte será overdose.
Um pouco mais a norte, o estuário do sado está também a ser afectado. Segundo o verificado in loco, a população de golfinhos regista mudanças abruptas de comportamento naquilo que poderia ser traduzido em emoções tipicamente humanas numa alegria trans-hipnótica (vulgo "moca"). Por sua vez, cardumes de chaputas e carapaus envolvem-se em rituais sexuais atípicos.
No campo do desporto, declarações explosivas d' El Pibe. Ao que parece o astro argentino pensa agora dedicar-se à natação. Numa entrevista a uma estação de televisão do seu país, Maradona terá dito, e cito: "Yo he nascido para la natacion. Portugal es mi pátria e Sines, mi casa. Me voy mui pronto para empezar mi entrenamiento.". Antes de se despedir, terá acrescentado ainda a vontade de fazer uma tatuagem do camarada Álvaro Cunhal ao lado da de Che Guevara que já possui.
Se houver novidades cá estarei. Vou-me manter à coca...
[ Qui Out 02 2003 ]
Fui confrontado com esta notícia na primeira página dum conhecido jornal diário. Segundo consta, um relatório da OCDE chegou a esta maravilhosa(?) conclusão. Imediatamente, lembrei-me duma outra notícia também recente, desta vez, relacionada com o cancro da próstata. Ao que parece, o esperma contém substâncias que ajudam a prevenir essa malfadada maleita. Qual era então o interesse da notícia? Pois bem, salientava-se que a masturbação poderá ser o remédio para a prevenção... Parece que já estou a ver: "E agora, Sr. Dr? Que me receita?" ao que este responde "Bata uma de 8 em 8 horas". E se a moda pega? Gargarejos?!
Ora o portuga, homem precavido, informado e oportunista, resolve agarrar esta oportunidade com as duas mãos (salvo seja) e meter baixa para bater punhetas, afinal de contas, parece que trabalhar faz mal e esgalhar faz bem.
Haja saúde!