setembro 21, 2004

MUDANÇAS (II)

«...e ele deu-me a resposta que eu já esperava: veio por sentimento de dever, de se sentir útil uma vez na vida, para preencher um vazio, por desafio intelectual. Em suma, uma armadilha clássica. (...)você não é homem para isto e sabe-o bem. Está fora do seu mundo e não acredita nos valores que é suposto representar e defender. Mas agora sente-se preso e não sabe como se há-de libertar. Mas que crime cometeu você para se atribuir esta autopuinição?»
in EQUADOR por Miguel Sousa Tavares

Gostava de viver numa cidade que não fosse a minha. Gostava de viver numa cidade que não tomasse como minha, em que os seus problemas e os das suas gentes não fossem para mim irritantes micoses crónicas. Gostava de viver numa cidade que não condenasse grande parte das pessoas com enorme potencial a rumar a outras paragens. Talvez por isso admire os que ficaram. Talvez por isso tenha querido um dia ser como eles. Quis mas já não quero. Quero fugir, quero para mim muito mas daqui pouco levo.
Acreditem quando digo que gostaria de me ver realizado em Beja. Sei que há muito trabalho para ser feito. Todavia sei também que há muito mato a desbravar e neste momento estou sem as forças e a vontade que me moveram outrora. O pior? Os inúmeros jovens que, como eu, se vêm confrontados com esta realidade. É assim que se fere de morte uma cidade. Não é um programa Polis que a condena a definhar. É a falta de sangue nas suas veias.

Post scriptum - Nada me dará mais prazer do que no futuro poder dizer acerca do que escrevi: "já não faz sentido!".

Publicado por João Ilhéu em 04:56 PM | Comentários (10) | TrackBack

setembro 20, 2004

MUDANÇAS (I)

Tudo muda…

Enquanto estive longe muita coisa mudou à minha volta. Também por isso sou outro. E sou-o porque houve coisas em mim que mudaram, porque a cidade em que vivo mudou, porque as pessoas mudaram.

…Terá tudo isto mudado de facto ou serei só eu?

Serão, de facto mudanças ou será apenas mais do mesmo? Será precisamente este “mais do mesmo” que me/nos transforma invariavelmente em determinado ponto da vida? Será esta altura previsível?

Há quem diga que mudei para pior. Eu digo que foi um reflexo. Mas acho que acordei. Pelo menos sinto a calma a apoderar-se de mim… finalmente. Infelizmente, não vem só. Trouxe alguma tristeza e angústia com ela.

Que transformações são essas? Como vivemos nós com elas? Moldamo-nos ou resignamo-nos? Se nos moldarmos, vivemos, se nos resignarmos passamos pela vida qual insecto saído da pena de Kafka.

Tudo muda… para melhor?

Publicado por João Ilhéu em 03:12 PM | Comentários (4) | TrackBack